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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Literatura para todas as idades




Literatura para todas as idades
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB)

O reconhecido crítico brasileiro Antonio Candido disse, certa vez, que todo bom livro de criança serve para adulto e prossegue o crítico – o grande, o bom conto infantil é, portanto, o que vale igualmente para adultos. Imbuída do pensamento de Antonio Candido, iremos tecer comentários sobre livros produzidos para crianças e jovens, mas que certamente irão agradar aos adultos.

O BAÚ DE SEU MACHADO. Sílvia Eleutério e Márcia Kaskus. Ilustrações de Victor Tavares. Rio de Janeiro: Zeus, 2007.

Machado de Assis para crianças? Será possível? Já houve adaptações dos romances de Machado de Assis para jovens e belíssimas recriações do texto machadiano. Recentemente Moacyr Scliar recriou Dom Casmurro e escreveu “Ciumento de carteirinha”, mas Machado para crianças com texto bem dialogado parecendo peça teatral! Sim, gente, é isso mesmo, Machado de Assis para crianças.
Silvia Eleutério e Márcia Kuskas vêm desenvolvendo um trabalho na Academia Brasileira de Letras com o título de Ciclo de Leituras – Dramaturgia de Sempre com a finalidade de apresentar autores consagrados da dramaturgia brasileira ao público que freqüenta a ABL. Em 2003, as duas se reuniram e criaram o texto infantil O Baú de Seu Machado que agora, em 2007, aparece em livro pela editora Zeus.
Para fazer as ilustrações, foi convidado o desenhista e ilustrador Victor Tavares que pesquisou muito sobre o Rio antigo, o Rio da época de Machado de Assis e, com seu talento, criou cenários, casarios, ruas estreitas, lampiões, tudo à moda antiga.
Os personagens/moradores do livro são aqueles criados pelo bruxo do Cosme Velho. Seu Machado, o protagonista, é Machado de Assis, com traços de Simão Bacamarte, personagem meio louco do conto O Alienista. Aparecem, ainda, a cartomante, o imperador D. Pedro II, Deolindo e muitos outros, todos de forma bem jocosa com falas exageradas e traços caricaturais.
É livro para crianças grandes e pequenas. Quem assistiu ao espetáculo na ABL gostou, quem leu o livro também gostou. E você leitor? O que está esperando? Encomende o livro na livraria mais próxima de sua casa ou peça pelo reembolso postal, você não vai se arrepender.

A INFÂNCIA DE ZIRALDO. Audálio Dantas. Projeto gráfico de Camila Mesquita. São Paulo: Callis, 2007.

Ziraldo é cartunista, escritor, ilustrador, amado por crianças e adultos, é mineiro de Caratinga( MG) e começou a desenhar aos três anos de idade e, segundo seu biógrafo Audálio Dantas, não parou nunca mais.
Ziraldo é o filho mais velho de Dona Zizinha e Sr. Geraldo e da junção dos nomes dos pais surgiu ZI+RALDO = ZIRALDO. O menino foi criado no meio de cinco irmãos, três homens e três mulheres.
Quando estava com três anos, a família mudou-se para Lajão e foi nessa cidade que o menino descobriu o mundo. No fundo do quintal de sua casa passava um rio, o rio Doce. Para os olhos do pequeno Ziraldo, esse rio era um mar de água, rio capaz até de engolir menino. Um dia um menino foi levado pelo rio e uma jangadinha desceu o rio para procurar o desaparecido. Essa é uma cena que ficou gravada na memória de Ziraldo como uma das mais tristes lembranças de sua infância.
Ziraldo morava em uma casa com quintal grande, todo cercado por muros altos e brancos e foi nesse muro todo branco que Ziraldo começou a fazer seus primeiros desenhos. Foi também nesse período, vivendo em Lajão, que o menino despertou para os quadrinhos através dos gibis. A professora Maria do Carmo implicava com o gosto de Ziraldo pelos gibis. Quando encontrava uma revistinha na sala de aula armava um escândalo. Para essa professora o gibi “era uma indecência”, mas Ziraldo não se incomodava com as implicâncias da professora e, ao lado dos gibis, lia também livros - Tesouro da Juventude, Robinson Crusoé e quase toda coleção de Monteiro Lobato, tudo foi devorado pelo freqüentador da biblioteca da escola.
O biógrafo narra um episódio da vida de Ziraldo que merece ser contado. Certo dia um fotógrafo veio tirar o retrato da família. De repente, Dona Zizinha pede para que o fotógrafo esperasse um pouco, pois faltava o melhor amigo de Ziraldo e foi buscar correndo o amigo. E quem era o amigo? Um livro ensebado, lido e relido pelo pequeno. A paixão pelo livro é coisa muito antiga! No retrato da família, lá está Ziraldo com o livro na mão, essa foi outra cena que marcou a sua infância. Não causa estranheza a afirmativa do escritor: Ler é melhor do que estudar.
Audálio Dantas é alagoano de Tanque d´Arca e grande amigo de Ziraldo e gosta de escrever sobre a infância dos escritores. Camila Mesquita, responsável pela parte gráfica do livro, organizou os desenhos, retratos da família, a diagramação do livro, tudo muito bonito e bem simples. É leitura agradável que irá cativar leitores de 8 a 80 anos.


domingo, 26 de julho de 2009

Viajar é preciso Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti.



Viajar é preciso
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil / PB)

Não há melhor fragata que um livro
para levar-nos a terras distantes.
(Emily Dickinson)

A editora Record atendeu a meu pedido e me enviou um livro há muito tempo desejado – Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti. Ao recebê-lo, lembrei-me de Pedro Nava quando se referiu à aquisição dos livros que povoavam suas estantes:
“A aquisição de cada um foi o resultado de longas espreitas, pesquisas, paqueras, paciências e esperas – como na conquista das amadas”. (Galo-das-trevas.1987:49).
Chegou-me à noite e nessa mesma noite adentrei-me na leitura que me conduziu a terras distantes, mergulhei nos poéticos ensaios de Marina Colasanti e saí da leitura disposta a escrever mais um artigo sobre o desejado livro.
Composto de 17 ensaios que falam sobre leitura, alguns textos foram apresentados em congressos e seminários; outros integram artigos publicados em jornais e prefácios de livros. Vamos pinçar fragmentos e tentar despertar no leitor o desejo de ler o livro na íntegra.
“O real mais que real” é o primeiro artigo, e foi apresentado no Segundo Congreso de las Américas de Lectoescritura, em San José, Costa Rica, em 1995. Vale a pena transcrever a observação de Marina Colasanti sobre o conto “A pequena sereia” de Andersen:
A história da pequena sereia criada por Andersen não é uma história qualquer. É uma doce e maravilhosa parábola da vida. E se faz tanto sucesso com as crianças do mundo inteiro, que certamente não praticam os desmontes conscientes a que nós adultos e, sobretudo nós criadores e estudiosos da literatura somos levados, é porque as parábolas, como as metáforas, pertencem à linguagem dos sonhos, do imaginário. E não necessitam de desmontes para serem apreendidas. (p. 24)
“No mundo da magia se come rosbife” foi publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 2001, e, nesse texto, Marina discorre sobre a série Harry Potter e discute dois aspectos dos livros de Rowling: o mercado e o conteúdo.
No primeiro caso, ela afirma que os livros de J. K. Rowling vêm revestidos de uma grande onda de publicidade: outdoors, cartazes, anúncios de páginas inteiras, vitrinas especiais nas livrarias para expor os livros que se transformam em verdadeiros best sellers. São palavras de Marina Colasanti:
Harry Potter representa, portanto, uma virada no mercado editorial. A partir dele, instala-se a possibilidade de livros para crianças serem trabalhados ao mesmo tempo em vários países, em grandes lançamentos agressivos e coordenados, visando a vendas estratosféricas. Exatamente como certos livros para adultos. (p. 48).
Quanto ao conteúdo, Marina discorda do crítico norte-americano Harold Bloom que não considera os livros de Rowling bem escritos, ressaltando a presença de clichês. Reconhece que tem menos autoridade do que Bloom, mas vislumbra aspectos positivos nos livros da série Harry Potter e aponta: “poucas descrições e muitos diálogos”. Afirma ainda que a linguagem oral e o ritmo acelerado tornam os livros de Rowling palatáveis. Como convém a livros de série, eles deixam a porta aberta para a próxima rodada.
“Um espelho para dentro” foi apresentado no Encuentro de Escritores Brasileños, Casa de América, Madri, 2003.
Neste texto, a escritora se utiliza da metáfora do espelho para revelar o seu próprio eu. Partindo da pergunta: “Espelho, espelho meu, que escritora serei eu?” (p. 105), Marina, como a personagem Madalena, de Graciliano Ramos, no romance “São Bernardo”, se revela pouco a pouco e nunca se revela inteiramente.
Em seguida, fala sobre sua produção literária, seus livros, sua gênese, seu gosto pelos contos de fadas. Mas... depois de muito escrever, um dia ela se interroga:
Espelho, espelho meu, voltei a perguntar há exatos dez anos, o que foi que a escrita ainda não me deu”?
E o espelho respondeu: a poesia. (p.110)
Foi a partir da reflexão de não ser poeta que ela resolveu escrever o primeiro livro de poesias – Rota de Colisão e sentiu que a poesia estava no seu rumo, pois é na poesia, mais do que em qualquer outro gênero, que podemos beijar o lado de dentro das palavras. (p.110)
Nesse encontro, Marina Colasanti encerrou suas palavras com uma poesia. Era mais uma face do espelho que se fazia representar.
O último texto do livro “Que escritora seria eu se não tivesse lido?” foi apresentado no Simpósio Internacional Transdisciplinar de Leitura no Rio de Janeiro, em 2000. Algumas revelações feitas por Marina merecem registro. Ao falar sobre sua mãe e as leituras da infância, ela faz esta afirmativa:
Minha mãe não contava, inventando o texto ao sabor da fala. Ela lia. O encantamento da narrativa me chegou através da palavra organizada em escrita, e amei as palavras tanto quanto amei as histórias. Eu li ouvindo, quando ainda não podia ler. Para despir-me da leitura, totalmente, até a isso deveria renunciar. (p.248)
Hoje, adulta, a escritora diz que ler como “triatlo”. Acorda de manhã e perde no mínimo uma hora lendo jornais. Será que ela está perdendo mesmo tempo ou está se atualizando com as noticias do Brasil e do mundo?
Em uma segunda etapa, a escritora vai para o escritório e começa a ler o material de trabalho e pelo dia afora vai lendo e escrevendo. Reconhece que como leitora/atleta não é disciplinada, perde tempo lendo coisas inúteis e o pior é que esquece a grandíssima parte do que ler.
O livro se encerra com uma pequena nota da autora que utilizamos para colocar ponto final neste artigo:
[...] quando se chama um escritor para falar da escrita, o que se espera dele não é uma visão ‘de fora’ puramente teórica, mas o relato daquele percurso interior que lhe tornou a escrita possível. http://www.megaupload.com/?d=IUOBVTT6

domingo, 19 de abril de 2009

Marcus Accioly – um poeta nordestinado


Marcus Accioly – um poeta nordestinado
(Neide Medeiros Santos – Professora e Crítica Literária – FNLIJ/PB)

“... nordestinados somos todos nós – nordestinos, brasileiros, latinamericanos – porque este destino de Nordeste é a própria condição de NossAmérica.”
(Marcus Accioly. Capa do disco Nordestinados. A palavra que volta ao canto. Discos Chantecler s/d).

Marcus Accioly, que este ano completa 40 anos de poesia, é considerado uma das grandes vozes poéticas do Nordeste. A produção literária do autor abrange mais de 10 títulos: Cancioneiro (1968); Nordestinados (1972); Xilografia (1974 – livro de poemas com gravuras do folhetinista e xilógrafo José Costa Leite); Sísifo (1976); Íxion (1978); Guriatã: um cordel para menino (1979- com xilogravuras de Dila); Ó de Itabira (1980); Érato (1983); Narciso (1984); Latinomérica (2001). Accioly ainda escreveu dois pequenos livros para o público infantil – ABC dos Bichos e P (B) ara (ti) nação.
Nas Notas ao Leitor, inseridas no livro Narciso, Accioly divide parte de sua obra poética de acordo com os quatro elementos da natureza. Cancioneiro, Nordestinados e Guriatã: um cordel para menino estariam ligados à terra; Sísifo ao ar; Íxion ao fogo; Narciso à água. Teceremos alguns comentários sobre a fase ligada à terra.
A publicação de seu livro primeiro livro, Cancioneiro, o autor deve ao crítico literário e poeta César Leal, seu orientador poético e, como ele mesmo tem afirmado em diversas ocasiões, pai de sua geração. Com relação à receptividade crítica a esse livro, Nelly Novaes Coelho afirma que é uma tentativa de nomeação do novo Real e revela uma nova consciência épica.
Seguindo as trilhas de Cancioneiro, o segundo livro, Nordestinados, mergulha nas raízes populares e amplia o universo épico narrativo já detectado na obra anterior. Nelly Novaes Coelho saudou esse livro com um brilhante ensaio – Nordestinados: A Palavra que Nasceu do Canto.
A respeito do título Nordestinados, Marcus Accioly apresenta a seguinte explicação para o termo:
O neologismo nordestinado (que inventei no singular e usei no plural como título) deixa de ser espécie para tornar-se gênero: nordestinados somos todos nós – nordestinos, brasileiros, latinamericanos – porque este destino de Nordeste é a própria condição de NossAmérica.
O significado do vocábulo extrapola os limites do regional; ele é bem mais amplo do que parece, seguindo uma gradação que envolve nordestinos, brasileiros e os latinos da América.
Guriatã: um cordel para menino é o último livro ligado à terra. Composto de 91 poemas e cinco notas que explicam a gênese do livro, o poeta procura resgatar a infância perdida, o “país-paraíso” do engenho Laureano. O xilógrafo Dila, o ilustrador, tentou traduzir plasticamente o conteúdo do texto. Modalidades de cantoria (martelos, toada-alagoana, canções suspirosas, desafios, mourões); poemas dialogados e poemas independentes tornam esse livro o mais intrinsecamente preso ao elemento terra.
Accioly revelou, certa vez, que seguia Tolstoi pelo avesso – “procurava pintar o mundo para pintar a sua aldeia”. Acreditamos que, com a saga do engenho Laureano, o poeta conseguiu realizar esse ideal. O locus amoenus da região canavieira não é privilégio da zona da mata pernambucana: está presente na região da Provença, tão bem retratada por Paul Cézanne em seus quadros; nos riachos e rios, num canto da Champagne, povoado de várzeas, na descrição poética de Bachelard; no mundo encantado do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato e no país de São Saruê, do poeta popular Manoel Camilo dos Santos.
No que se refere à repercussão crítica, este livro conquistou dois grandes prêmios literários – 1º. lugar no Concurso Nacional Prêmio Fernando Chinaglia (1979), União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro e Láurea Altamente Recomendável para o jovem (1980) Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Guriatã: um cordel para menino já alcançou cinco edições, é o livro mais editado do autor.
Com esta obra, Accioly tenta recuperar a infância através de um texto que é a junção do épico com o lírico; do erudito com o popular; do real com o imaginário.
Na 5ª. edição (2006) – “Comemorativa dos Vinte e Cinco Anos e mais Um”, como costuma se referir o poeta a esta edição, encontramos, na orelha do livro, trechos do parecer de Stella Leonardos, membro do júri do Prêmio Fernando Chinaglia que julgamos pertinente transcrever:
Sobre o livro classificado em primeiro lugar (Guriatã: um cordel para menino - de Marcus Accioly) registrei em meu relatório:
Mestria verbal. O Nordeste inteiro no que tem de mais significativo e autêntico. Uma saga da infância esquecida. Algo de maravilhoso e de tal força que fez a relatora improvisar esses versos:
Ave, guri guriatã!
do cordel voa canto
tão voz de menino pássaro,
tão asa de voz menina
que o coração se ilumina
de hoje –sol luamanhã.
Qual será o motivo da permanência desse livro? São passados 28 anos da 1ª edição e “Guriatã: um cordel para menino” continua encantando a todos. Atribuímos essa permanência à presença dos mitos (populares e eruditos), a beleza poética do texto e a miscigenação dos gêneros ( é um livro épico, lírico e dramático).
Com Guriatã: um cordel para menino, Marcus Accioly traz à tona um passado perdido, um mundo vivido e sonhado e, principalmente, não deixa morrer a criança-poeta ou o poeta-criança que norteia sua vida.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A cartografia da saudade

Cartografia da saudade: um ensaio poético
(Neide Medeiros Santos – ensaísta e crítica literária – FNLIJ/PB)

Saudades, só portugueses
Conseguiram senti-las bem
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
(Fernando Pessoa. Quadras ao gosto popular).

Corpo e alma: terapia biopsicossociais, livro organizado por Maria Goretti Ribeiro, Maria de Fátima Araújo e José Alves Nogueira, uma edição da Editora Universitária (UFPB, 2007), reúne sete ensaios que tratam de problemas ligados à saúde e à psicologia. Na impossibilidade de destacarmos todos os ensaios, vamos examinar, com mais acuidade, o texto de Edmundo Gaudêncio que trata da temática da saudade e do luto.
Cartografia da saudade: apontamento para a clínica do luto, texto do médico psiquiatra Edmundo Gaudêncio, investiga “a vivência do luto, a reação emocional às perdas”. O ensaio de Edmundo Gaudêncio registra como texto “gerativo” a canção de Chico Buarque – Pedaço de mim.. A partir da letra dessa canção, o ensaísta discorre sobre as perdas, as coisas que não ficam, o luto e, de forma mais específica, sobre o sentimento da saudade.
A Psicanálise, a Antropologia e a Sociologia ajudam a entender o sentimento da perda, mas o texto de Edmundo Gaudêncio ganha corpo e poeticidade quando se detém no exame da saudade. E surge a interrogação: Quais são as nossas saudades?
Sentimos saudade de tantas coisas. O autor cita, como exemplos, a saudade do dia que passou, quando cai a noite; saudade dos lugares visitados, que são sempre mais belos quando distantes; saudade da primavera, quando chega o inverno. Esses exemplos levam o leitor a pensar em outros tipos de saudade. Saudade de um pôr-do-sol bem iluminado, de uma música suave e nostálgica, de uma leitura de um livro que nos encantou e que teima em voltar à nossa mente.
Há certos poemas, evocadores de saudade, que merecem ser lidos com acompanhamento musical e sugerimos que a leitura de Elegia I, de Cecília Meireles que recorda a morte da avó, Jacinta Garcia Benevides, seja feita ouvindo a bonita música “Meditação para Thaís”. de Massenet, com o acompanhamento do violino mágico de Sarah Chang.
Diante das saudades citadas pelo ensaísta, vem o comentário:
Mas essas saudades são tão simplezinhas, tão saudadezinhas, que nem notamos que são saudades. Apenas notamos como sendo saudade a saudade doida e doída do que não volta, do que não possui retorno: saudade de pessoa e coisa que, somente quando perdidas, descobrimos que eram únicas e descobrimos quanto de nós levaram consigo. Essa a saudade maior, da qual todas as outras são pálidos reflexos. (p.71)
Sabemos que algumas saudades podem retornar. Um lugar visitado que nos causou uma boa impressão pode ser revisitado, um livro amado pode ser relido, as estações são cíclicas, sempre se renovam. Mas uma pessoa que se foi essa não volta nunca mais. Uma casa demolida, a infância perdida, tudo é um passado sem volta.
Nesse ensaio, existe também a preocupação com os vários sentidos da palavra saudade, termo decantado pelos poetas, e aí aflora, mais uma vez, a veia poética do ensaísta quando diz:
... saudade é que se põe à mesa, no lugar de quem não veio, no lugar de quem não volta” (p. 72).
Saudade é perder de vista, é não ter mais sob os olhos, é nunca mais olho-no-olho. (p.72)
Diante da perda, que é uma coisa inevitável, o que devemos fazer? O analista da alma apresenta uma solução:... é necessário amar as pessoas, as coisas, os lugares antes que passem e sejam saudades. (p.74).
Para concluir, remetemos o leitor à canção de Chico Buarque que fecha o ensaio de Edmundo Gaudêncio como um “ritornelo”:

Oh, pedaço de mim,
Oh, saudade afastada de mim,
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior que o esquecimento,
É pior do que se entrevar. (...)










Prêmios da ABL/2008
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

...Ver bem não é ver tudo: é ver o que os outros não vêem.
(José Américo de Almeida. A Bagaceira. Antes que me falem. 42 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 3).

No dia 17 de julho, durante sessão solene comemorativa dos 111 anos da fundação da Academia Brasileira de Letras, foram entregues os prêmios literários 2008. Autran Dourado foi o vencedor do Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de obra. Izacyl Guimarães Ferreira recebeu o Prêmio de Poesia – “Discurso Urbano”. Na categoria de Ensaio, o vencedor foi Laurentino Gomes com o livro “1808”. Coube a José Alcides Pinto o Prêmio de Ficção, Romance, Teatro e Conto – “Tempo dos Mortos.” Daniel Munduruku recebeu o Prêmio de literatura Infanto-Juvenil com o livro “O Olho Bom do Menino” (Ed. Brinque-Book, 2007), com ilustrações de Rubens Matuck.
Antes de falarmos sobre o livro vencedor na categoria infanto-juvenil, vamos conhecer um pouco do autor e do ilustrador.
Daniel Munduruku, nome literário de Daniel Monteiro Costa, nasceu no Pará, é descendente do povo munduruku, atualmente reside no interior de São Paulo. Estudou Filosofia na Universidade Salesiana de Lorena, é filósofo e professor, cursa doutorado em Educação na USP. É autor de cerca de 30 livros infanto-juvenis. Em seus textos, procura sempre divulgar a cultura e o saber do povo indígena. Já recebeu inúmeros prêmios no Brasil e no exterior. Em 2006, foi condecorado com a “Comenda de Mérito Cultural”, outorgada pelo Ministério da Cultura e o livro “Meu avô Apolinário” ganhou menção honrosa da UNESCO (2003), no Prêmio Literatura para Crianças e Jovens, na questão da tolerância.
Rubens Matuck nasceu e mora em São Paulo, ilustra livros desde a década de 1980. É escritor, ilustrador, pintor, aquarelista, escultor e um árduo defensor do meio ambiente. Mantém no seu ateliê um viveiro de plantas, distribuindo mudas para arborizar as ruas de seu bairro e dá aulas para alunos com necessidades especiais. Seu trabalho com crianças, portadores de deficiências, o ajudou a ilustrar esse livro que fala da visão interior de um personagem muito especial – Theo Luís. Para ilustrar “O Olho bom do menino”, Rubens Matuck usou a técnica da aquarela. Cores suaves formam um conjunto harmonioso e agradável.
Daniel Munduruku sempre utiliza, em seus livros, a temática indígena, mas “O Olho bom do menino” foge desse tema recorrente e vamos encontrar como personagem central um menino portador de deficiência visual. Logo, no início da narrativa, após uma conversa com a mãe do menino, o narrador faz essa observação a respeito da visão de mundo do menino:
“- Ele parecia ser muito feliz, apesar dessa condição”. (p 8).
No decorrer da história, Theo Luís vai se revelando pouco a pouco e dá lições de bem viver à mãe que se sentia um pouco culpada pela cegueira do filho (ela tivera rubéola quando estava grávida) e aos adultos que privam de sua convivência.
Há uma passagem no livro em que o menino confessa a um adulto:
“- É importante que o senhor saiba que mesmo com os olhos fechados eu posso ver muita coisa”. Depois continuou:
“-Tem coisas que a gente só vê quando fecha os olhos. As pessoas cegas se acostumam com a escuridão e dela fazem seu mundo. A gente tem os outros sentidos que nos ajudam a ver coisas que os que vivem de olhos abertos não conseguem enxergar”. (p.14-15)
Theo Luís perdeu a visão, mas tem a capacidade de enxergar as pessoas por dentro. Há uma passagem do livro que o menino revela o que seu “olho bom” pode ver:
- Eu tenho um olho bom – disse, sorrindo...
- Mas não adianta procurar aqui, no meu rosto. Estes aqui nada vêem. É por isso que meu olho de dentro do coração funciona, e eu sinto quando as pessoas estão infelizes” (p. 19).
A poeticidade desse livro pode ser comparada ao filme iraniano “A cor do paraíso”, com direção e roteiro de Majid Majidi, que conta a história de Mohammad, um menino cego que busca o sentido da vida nas coisas mais simples – como um filhote de passarinho que cai do ninho e, sem pressa, espera ser colocado no abrigo seguro (e o pequeno Mohammad o traz de volta ao ninho), parar no meio do caminho e escutar o toc-toc dos pica-paus na mata, andar pelo campo na companhia da irmã, ouvir histórias contadas pela avó.
A beleza literária de “O Olho Bom do Menino”, aliada à riqueza da ilustração, nos levou a escrever uma breve louvação para Daniel Munduruku, inspirada nas palavras de José Américo de Almeida:

Louvo o avô e louvo o pai
Louvo todo o povo munduruku
Louvo o escritor Daniel
Que vê o que os outros não vêem.

E Rubens Matuck? Merece também ser louvado.

Minha inspiração é curta
Para tanta louvação
Para Rubens Matuck – obrigada
Digo adeus e vou-me embora.

sábado, 11 de outubro de 2008

violeta formiga



NEIDE MEDEIROS SANTOS
As pessoas não morrem, ficam encantadas.(João Guimarães Rosa)Violeta de Lourdes Gonçalves Formiga nasceu na cidade de Pombal (PB), no dia 28 de maio de 1951 e foi brutalmente assassinada no dia 21 de agosto de 1982. Este ano completa 25 anos de seu encantamento. Poeta e psicóloga, Violeta era uma alma sensível e teve forte atuação nas letras paraibanas, publicando poemas no “Correio das Artes” e em outros suplementos literários. Em 1981, lançou, na Galeria Gamela, Contra Cena. Sensações, publicado em 1983, é uma edição póstuma.A poesia de Violeta Formiga denota uma profunda paixão pela vida. Os poemas são curtos, versos simples, com destaque para os aspectos da vida cotidiana. O crítico literário Hildeberto Barbosa Filho ressalta que a poesia de Violeta é lírica e confessional, mas não resvala para o subjetivismo, é uma poética que se centraliza no emissor, no “eu - lírico”.Na edição do livro Sensações, vários poetas e amigos registraram depoimentos que ressaltam o valor de sua poesia e seu modo descontraído de ver e sentir o mundo. Através desses depoimentos, podemos traçar um retrato físico e psicológico da poeta.Altemir Garcia revela a frialdade do assassino com estas palavras:... Depois nem lavou as mãos. Ligou a vitrola e foi escutar Brahms.Anco Márcio destaca o local escolhido para alojar a bala assassina:... Logo no coração. Meu Deus, no lugar onde ela guardava todo o seu estoque de poesia e ternura.Carlos Tavares vislumbra a força da poesia de Violeta:E Violeta fez questão de gritar e gesticular pra todo mundo com suas estrofes, versos prontos e reticências.Cláudio Limeira chama a atenção para a musicalidade dos versos da poesia de Violeta:... Cante a última canção sem viola.O jornalista e cronista Evandro Nóbrega faz uma descrição física de Violeta, destacando a morenez e o brilho do olhar:Morena, com um quê de boneca ágil, pequena, sorridente, bonita a seu jeito, pulsante de cor e energia. Os olhos, os olhos pretos, vivos penetrantes, prazenteiros, joviais.O cronista Francisco Pereira Nóbrega rememora uma frase dita por Violeta que é um reflexo de sua maneira de ser:Violeta, onde estiver, estará repetindo a primeira frase que me disse: “deixaram a gaiola aberta, o passarinho voou. Achei foi bom”.Nelson Tangerini (RJ) louva a poeta e a poesia com essa contundente afirmativa:Aos artistas, a pena, a arte... aos incompetentes, as armas.O tenente Lucena instiga as mulheres paraibanas a adotarem a violeta como símbolo:Mulher paraibana adote a violeta como símbolo.O desejo de ser pássaro aparece em alguns de seus poemas e Dádiva representa bem esse desejo:Ser pássaroe voar infinito.(Que seja esteo meu últimocastigo)Para conhecer a poesia de Violeta Formiga é recomendável viajar pelos seus versos, diminutos em quantidade, mas ricos em qualidade literária. A leitura dos poemas que figuram nos dois livros de poesias – Contra Cena e Sensações – permite que o leitor mergulhe no universo poético dessa pombalense de vida breve, mas que soube, com seu canto, mesmo sem viola, atravessar as fronteiras da Paraíba.Os livros de Violeta Formiga não foram mais reeditados, só é possível encontrá-los em bibliotecas ou em sebos. O impacto da morte de Violeta suscitoudepoimentos pungentes,tudo não pode cair no esquecimento, é necessário que a sua poesia seja revisitada através da reedição de seus livros.