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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um conto natalino



UM CONTO NATALINO

 
            (Neide Medeiros Santos – Crítica literária –FNLIJ/PB)
            [...]
            Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
            Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
            Ele é o humano que é natural,
            Ele é o divino que sorri e que brinca.
            E por isso é que eu sei com toda a certeza
            Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
            (Alberto Caeiro. O Guardador de Rebanhos. Poema VIII).
           
            Na época de Natal, lembramos sempre de contos que falam sobre esta festa celebrada no mundo inteiro. Nesse universo de contos natalinos, desponta o tradicional “Missa do Galo”, de Machado de Assis.  Há outro conto, dentro da temática natalina, que nos remete à infância e às leituras que fazíamos no período de férias, é o poético e enternecedor conto de Hans Christian Andersen – “A pequena vendedora de fósforos”.
            Este ano, sugestão de presente natalino, apresentamos um livro editado em João Pessoa pelo Fundo Municipal de Cultura que traz uma bonita história, trata-se de “Os trinta dinheiros do Rei Melchior”, de Alberto Correia, escritor português, que contou com ilustrações da artista plástica paraibana Analice Uchoa. O livro foi lançado no dia 27 de setembro de 2012, na Galeria Gamela.   Na ocasião do lançamento, houve exposição das telas de Analice Uchoa que ilustraram o livro.
            Alberto Correia, em nota ao livro, explica que a história dos trinta dinheiros do rei Melchior foi inspirada no conto do monge alemão João de Hildesheim que viveu nos anos 1300, na Alemanha. São palavras do escritor português:
            “Foi esta história mais alargada de pontos, que eu escrevi para o Natal de 2010.” Este ano os paraibanos tiveram a oportunidade de conhecer o texto já divulgado em Portugal.
            Analice Uchoa é natural de Campina Grande, radicada há muitos anos em João Pessoa. Atualmente é reconhecida como “expoente da pintura naif” na Paraíba. A artista retrata em suas telas fatos e coisas do cotidiano nordestino com um colorido forte e vibrante.            
            “Os trinta dinheiros do rei Melchior” é um conto acumulativo, feito de textos encadeados que começam com o surgimento do cristianismo na Terra. O primeiro remonta aos primórdios do cristianismo com os personagens bíblicos do Antigo Testamento – Abraão, Jacob, José do Egito, Salomão, Moisés.
            Muitos anos se passaram e a narrativa prossegue chegando ao Novo Testamento. O segundo momento situa o reino dos caldeus, época em que governava um rei que tinha por nome Melchior. Era um rei sábio que gostava de astronomia e de observar o céu. Ele sabia que iria surgir uma nova estrela para anunciar o lugar do nascimento de um Grande Rei.
             Numa noite de dezembro, apareceu a esperada estrela e Melchior resolveu seguir o caminho apontado pela estrela e levou um tesouro para ofertar ao Novo Rei – uma bolsa antiga com trinta moedas de ouro. No caminho, ele encontrou dois outros reis – Gaspar e Baltasar que resolveram acompanhá-lo até o local do nascimento indicado pela brilhante estrela e ofertar presentes ao recém-nascido.  
            Os reis chegaram ao destino desejado e depositaram seus presentes aos pés daquele Rei que nasceu de modo simples e pobre em uma manjedoura.
            Engana-se quem pensa que a história termina com o oferecimento dos presentes dos reis, seguem-se muitas outras e as trinta moedas de ouro vão passar por outras mãos, mas isso só vai ser possível saber lendo o livro na íntegra.  
            Não poderia deixar de fazer referência às belíssimas ilustrações de Analice Uchoa. O livro está dividido em treze capítulos e Analice fez ilustrações para todos os capítulos. As cores tropicais, vibrantes e fortes, estão presentes nos pés de ipês de cores variadas, nos animais domésticos – bois, ovelhas e burrinhos que se apresentam ao lado dos camelos. A paisagem nordestina convive fraternalmente com a oriental.
            Aliado a tudo isso, destacamos outros elementos que enriquecem o livro - um mapa contendo toda a trajetória da aventurosa viagem dos reis até chegar a Belém, e gráficos com a linha do tempo, representando “Tempo antes de Cristo” e “Era Cristã”.
            O livro encanta pela linguagem bem cuidada de Alberto Correia e as ilustrações de Analice Uchoa.  

            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            GRACILIANO RAMOS
            Atendendo a convite da jornalista Clarice Cardoso, “Carta Fundamental”, escrevemos um texto sobre o escritor alagoano Graciliano Ramos, com ênfase para os livros infantis – “A terra dos meninos pelados”, “Pequena história da República” e “Histórias de Alexandre.” A revista “Carta Fundamental” integra o grupo da revista” Carta Capital” e são colaboradores, entre outros, Ana Maria Machado, Marcos Bagno e Braúlio Tavares. É uma revista mensal dirigida a professores e educadores.  Nosso texto saiu na revista do mês de dezembro e já  está disponível nas bancas de revistas.






quinta-feira, 8 de março de 2012

Violeta Formiga homenageada



Violeta Formiga: uma homenagem merecida

(Neide Medeiros Santos) **

Os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia.
(Otávio Paz. O desconhecido de si mesmo).

Violeta de Lourdes Gonçalves Formiga este é o nome completo da poeta. Violeta Formiga é o nome artístico. Vítima da sanha de algum menino perverso que não queria a sua convivência com os humanos, voou, como diz o poeta Manuel Bandeira, para o céu dos passarinhos no dia 21 de agosto de 1982. Denominar este colégio de Violeta Formiga é uma homenagem que o prefeito Ricardo Coutinho presta a quem soube cantar a liberdade como os grandes poetas e citamos, entre outros, o romântico Castro Alves, o chileno Pablo Neruda e o moderno Ferreira Gullar.
Para melhor compreender a dimensão poética de Violeta Formiga, julgamos necessário fazer um breve relato biográfico, trazer opiniões de poetas e jornalistas registradas em jornais por ocasião do lançamento de seu livro póstumo – Sensações e apresentar alguns poemas de sua lavra.
Violeta nasceu na cidade de Pombal, sertão da Paraíba, no dia 28 de maio de 1951. Era filha de José Formiga e Dona Prima Gonçalves Formiga. Passou a infância e adolescência na cidade de Pombal. Estudou no Colégio Diocesano e na Escola Normal Arruda Câmara na sua cidade natal. Em 1971, transferiu-se para João Pessoa e ingressou na Universidade Federal da Paraíba no curso de Psicologia. Na Universidade, já revelava tendências para a poesia e começou a divulgar seus poemas nos jornais da capital e no jornal literário Correio das Artes.
A poeta paraibana viveu apenas 31 anos, tinha quase a mesma idade de Augusto dos Anjos (30), e como Augusto deixou apenas um livro – Contra Cena. Após a sua morte, os amigos reuniram poemas inéditos e publicaram Sensações, uma edição póstuma. Pinçamos algumas opiniões dos amigos que se encontram, também, registradas nesse livro.
O escritor e jornalista Anco Márcio destaca, com muita emoção, o local escolhido para alojar a bala assassina:
Logo no coração. Meu Deus, no lugar onde ela guardava todo o seu estoque de poesia.
O jornalista Evandro Nóbrega traça o retrato físico de Violeta Formiga que pode ser confirmado pelo trabalho do artista plástico Domingos Sávio:
Morena, com um ar de boneca ágil, pequena, sorridente, bonita a seu jeito, pulsante de cor e energia. Os olhos pretos, vivos, penetrantes, prazenteiros, joviais.
O cronista Francisco Pereira Nóbrega deixou expresso, nessas palavras, a maneira de ser de Violeta e seu desejo de ser pássaro:
Violeta, onde estiver, estará repetindo a primeira frase que me disse: “deixaram a gaiola aberta o passarinho voou. Achei foi bom.”
A professora Wilma Wanda lamenta não poder acompanhar a poeta na sua nova trajetória:
Minha tristeza é não poder acompanhar contigo o desenho dos pombos voantes, o destino dos trens pelas montanhas e o brilho tênue de cada estrela brotando à margem do crepúsculo.
O poeta Cláudio Limeira, com poucas palavras, resume o canto poético de Violeta:
Cante a última canção sem viola.
Não sou poeta, mas ousei deixar um registro a respeito de Violeta Formiga no livro Sonho de uma feliz cidade, organizado por Heriberto Coelho em 2007, com selo do Sebo Cultural:
[...] no dia 21 de agosto de 1982, a cidade de João Pessoa, que acolhia a poeta de Pombal com afagos de mãe, acordou mais triste, acordou sem Violeta Formiga.
O mês era agosto e João Pessoa amanheceu sem... Violeta Formiga.
Feitas essas breves considerações, vejamos dois poemas de Violeta, representativos do seu jeito de poetar e cantar a vida.
No poema Dádiva que apresentaremos a seguir, nota-se o desejo de voar e de ser pássaro:
Dádiva
Ser pássaro
e voar infinito.
(Que seja este
o meu útlimo
castigo).

Ária No.3 é outro poema revelador do desejo de ser pássaro e da angústia existencial vivenciada pela poeta. Comprovemos:
Ária No. 3
Um pássaro noturno
vagueia
a procura da sua própria
procura.
A cantar para o vazio
a mesma balada
sai repetindo
sua triste canção de angústia
por se encontrar
no tempo sozinho.

Para concluir, apresentaremos, a seguir, um Poema Colagem, uma montagem que organizamos, um resumo da vida e da poesia de Violeta Formiga e um poema de Paulo Nunes Batista, poeta paraibano, radicado em Goiás que, após a leitura da plaquete Violeta Formiga: 25 anos de encantamento, escreveu esta bonita canção: Canção para a desconhecida amiga Violeta Formiga.
Poema Montagem:

EU, Violeta Formiga
Saio de mim mesma
como pássaro
do ovo.
De espaço
e asas
faço meu aprendizado,
mágico vôo.

Minha vida
por uma única
palavra:
Liberdade.
(Então eu
serei feliz
como os anjos
que ainda não
nasceram).

Não deixe que eu morra
me sinta.
É assim que eu sou
alegre e triste,
eterna e efêmera
amante do belo
e da miséria companheira.

Ser pássaro
e voar infinito.
(Que seja este
o meu último
castigo).

Canção para a desconhecida amiga Violeta Formiga

Violeta Formiga
cumpriu sua carma
armou seu vôo
de Mulher passarinho
de ternura morena
com seu Sorriso aberto
seu Olhar de noite irrevelada.

Violeta suspiro de viola
lágrima de flauta doce
risada de violão na tarde
choro de bandolim amadrugado
plano deseperado na chuva
expirar de onda na praia.

E essa distância fragrante da manhã?
E essa solidão de música insatisfeita?
E essa Violeta disfarçada em risos?
E esses rastros de luz pelo Caminho?

Peço-te perdão
por todos os homens
que esmagaram em ti
as pétalas de luz,
Violeta...

Há um pombal voando
nas asas do teu nome.

Os poemas utilizados no texto montagem foram extraídos dos livros Contra Cena e Sensações. O poema de Paulo Nunes Batista, do livro Samburá da Parahyba.
(* Texto apresentado na Escola Municipal Violeta Formiga, no dia 5 de junho de 2009, por ocasião da entrega de 200 livros de literatura infantil e 20 livros de autores paraibanos para a Biblioteca da Escola e publicado no blog "Eu amo literatura" no dia 08 de março de 2012 - Dia Internacional da Mulher).
(** Neide Medeiros Santos é coordenadora do Projeto “Mandala de Livros” e Representante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba Pertence à Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba e sua patrona é Violeta Formiga).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Maria Campos: moça de muitos nomes

MARIA CAMPOS: a moça de muitos nomes
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Não sei quantas almas tenho.
( Fernando Pessoa)

Stella Maris Rezende é mineira de Dores do Indaiá, nome poético e nostálgico para uma cidade. É atriz, escritora e publicou inúmeros livros para adultos e jovens. Recebeu prêmios importantes, como o Nacional João-de-barro e foi indicada três vezes para o Jabuti. Em 2010, conquistou o Prêmio “Barco a Vapor de Literatura” com o livro “A guardiã dos segredos de família”. (Ed. SM. 2010). Em 2011, pela Editora Globo, dentro da linha do “romance de aprendizagem”, publicou” A mocinha do Mercado Central”. É sobre este último livro que iremos tecer algumas considerações.
Presente e passado se entrecruzam nessa narrativa que reúne cinema, literatura, teatro e romance. Para Jacob Pinheiro Goldberg, doutor em psicologia e escritor, a prosa deste livro lembra, profundamente, o fluxo inconsciente da psicanálise. É, também, um guia no caminhar das ruas por diversas cidades brasileiras.
Na apresentação do livro, o ator e diretor de cinema, Selton Mello, afirma: “Em tempos anêmicos, essa leitura faz sonhar e encher o peito de alegria”. Vamos acompanhar as trilhas da personagem central Maria Campos, a mocinha do Mercado Central, e encher o coração de alegria por meio da leitura desse livro cheio de mineirice.
Maria Campos nasceu na mesma cidade de Stella Maris – Dores do Indaiá, filha única de Bernardina Campos e de pai ignorado. Tinha apenas o sobrenome da mãe. “A mãe fora violentada durante um assalto a um ônibus em que viajava de Belo Horizonte para São Paulo.” (p.17). Dessa união indesejada, nasceu a filha, mas a mãe era toda desvelo, dedicou a vida àquela que fora fruto de um estupro.
Antes de iniciar o roteiro das viagens e acompanhar Maria Campos por diversas cidades brasileiras, vamos conhecer Valentina Vitória, uma vizinha de Dores do Indaiá que tinha um sobrenome bem longo – Valentina Vitória Mendes Teixeira Couto. Foi esta vizinha bonita de cabelo comprido, cheio e cacheado, com pai e mãe que “viviam de mãos dadas” que ensinou a Maria Campos o significado de muitos nomes próprios, e deu esta explicação: “Cada nome tem a sua magia.” (p. 15).
Ao completar dezoito anos, Maria resolveu deixar a pacata cidadezinha do interior de Minas e conhecer outras cidades. Procurou convencer a mãe com este argumento: “Passar algum tempo fora da casa materna seria bom, diferente, aventuroso, e com certeza daria a ela Maria muitas oportunidades de aprender muitas coisas, coisas que a pia cheia de louça e a mãe sozinha não podiam ensinar.” (p.20) E partiu.
A primeira cidade escolhida foi Brasília. Para cada cidade visitada, Maria Campos iria adotar um nome diferente. Em Brasília, escolheu o nome de Zoraida, e foi trabalhar em um restaurante simples, feito de tábuas pintadas de azul-piscina.
A segunda aventura foi a cidade de São Francisco, não da Califórnia, mas do Norte de Minas Gerais. E veio um novo nome, agora era Teresa – “a que carrega as espigas de trigo”. Quando chegou naquela cidade que tinha nome de santo, sentiu-se “absurdamente disposta.” Trabalhou como enfermeira em um hospital e conheceu a dor de partir muito cedo – a morte do menino Tadeuzinho e de uma jovem mãe.
Na terceira aventura, o destino foi São Paulo. Agora seu nome era Simone, “aquela que escuta” e escolheu ser vendedora ambulante na Rua 25 de Março. Era um trabalho duro, tinha que limpar, organizar, mostrar, gritar, vender, agradecer e dizer: “volte sempre”. Um dia, veio a vontade de partir para uma nova aventura e Belo Horizonte foi o próximo pouso.
Miriam era seu novo nome, que significa “a filha desejada”. Quando chegou a Belo Horizonte, foi procurar o apartamento de uma tia que morava nas proximidades do Mercado Central. Dirigiu-se a um rapaz que desenhava com uma prancheta sobre os joelhos, sentado em um banco da Praça Raul Soares e perguntou-lhe onde ficava o Mercado Central. O apartamento da tia ficava nas proximidades do Mercado Central e o rapaz deu-lhe todas as indicações – ficava entre a Augusto Lima e a Goitacazes.
Tia Marta, “aquela que reina em casa”, morava em um apartamento pequeno, mas confortável. Havia um quarto-biblioteca no apartamento e a tia estava sempre lendo, “parecia que o livro era um namorado que ela ia beijar e abraçar.” (p.57)
O Rio de Janeiro foi o próximo destino de Nídia, nome de origem latina que significa “saído do ninho”. E a sugestão de visitar o Rio veio de tia Marta, ela tinha um apartamentozinho em Copacabana, Maria, agora Nídia, poderia ficar uns dias por lá, deu-lhe a chave, o endereço e um mapa da cidade do Rio de Janeiro. Tia Marta pediu-lhe uma coisa em troca: “Quero que vá ao Real Gabinete Português de Leitura” (p.61).
Essa visita ao Rio trouxe-lhe agradáveis surpresas. Na biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura, encontrou um volume sobre a mesa. Pegou o livro e começou a folhear. Na capa estava escrito Fernando Pessoa e ela se lembrou de que Fernando é de origem germânica e significa “guerreiro destemido”. E começou o ler aquele livro, foi lendo, lendo e encontrou este poema:
“Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.

E leu mais. Descobriu que Fernando Pessoa virava Alberto Caeiro. E virava Álvaro de Campos. E virava Ricardo Reis. Coisa que ela também gostava de fazer.
Mas o Rio ainda tinha boas surpresas. Entrou na Confeitaria “Traiteurs de France” para tomar um café e comer um “financier” e viu alguém importante entrando. Era ele, Selton Mello. Seu coração disparou. Há muito sonhava com esse encontro desde o tempo em que assistira “Lisbela e o prisioneiro”, no Cine Serra da Saudade, em Dores do Indaiá. Dirigiu-se para o ator e disse-lhe:
“- Selton, eu me apaixonei por você.” (p. 84)
Essa declaração foi o início de uma longa conversa. Nídia não acreditava que estava vivendo aquele momento mágico, conversando com Selton Mello.
Outras viagens, outras surpresas e Maria Campos ganhando novos nomes, novas aventuras. O romance juvenil termina com a mocinha da Estação Central retornando à cidade natal. Recebe o afago da mãe e a triste noticia do suicídio da amiga Valentina Vitória.
As inúmeras viagens e as várias cidades visitadas por Maria Campos demonstram que estamos diante de um verdadeiro “romance de aprendizagem”.
( Texto publicado no jornal “Contraponto”. João Pessoa, fevereiro de 2012)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

fábulas ecológicas modernas

Fábulas Ecológicas Modernas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Da viola do urubu
sapo caiu no penhasco,
gritando: “Arreda, lajedo,
sai, pedra, senão te lasco!”
(Marcus Accioly. Da festança-no-céu. In: Guriatã: um cordel para menino)

A palavra fábula tem origem latina e aparece em outras línguas sempre com o mesmo sentido – conta uma história tendo como protagonistas animais. Quanto à origem, remonta a tempos muito antigos. Embora se fale nas fábulas de Esopo (Grécia, VI a.C.,) Fedro (Roma, século I), La Fontaine (França, século XVII), o Oriente é considerado o berço deste gênero literário.
Câmara Cascudo, em “Literatura oral do Brasil” (1984:87), afirma que as histórias de animais, as fábulas clássicas, são milenárias. Os europeus representavam os temperamentos humanos sob a forma de animais. Para africanos e ameríndios, os animais viviam essa própria ação anímica e eram dotados de todos os poderes e raciocínios dos humanos. Possuíam o segredo do fogo, do sono e de certos vegetais.
Nas primeiras décadas do século XX (1920/1930), Monteiro Lobato procurou retirar o ranço moralista que envolvia as fábulas e deu-lhes nova roupagem ao escrever as “Fábulas de Narizinho” (1921).
Em carta ao amigo Godofredo Rangel (8 de setembro de 1916), Lobato expõe o esboço de um projeto: “Ando com várias ideias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades”.
Na história da literatura as fábulas sempre retornam, modernamente aparecem destituídas das antigas moralidades e apresentam novas maneiras de ver o mundo, conservando, porém, a presença de animais falantes e que agem como os seres humanos.
É dentro desta nova linha de fábulas que o escritor paraibano, radicado em Recife, o médico psiquiatra Luiz Carlos Albuquerque, escreveu duas histórias – “As aventuras de Urubill” e “Batra, o sapo”, livros publicados pela Editora Bagaço, Recife, 2011. Além de escrever para crianças, contos e cordel, Luiz Carlos Albuquerque é autor de um ensaio sobre Augusto dos Anjos – “Eu, singularíssima pessoa”, livro que foi consultado pelas pesquisadoras do projeto “Redescobrindo as Trilhas de Augusto dos Anjos” para escrever a “Biobibliografia de Augusto dos Anjos” (Ed. Universitária, UFPB, 2008) e “Augusto dos Anjos em imagens: uma fotobiografia” (Ed. Ideia, 2010).
Mas vamos em busca das fábulas fabulosas criadas por Luiz Carlos Albuquerque.
Urubill é o protagonista do livro “As aventuras de Urubill” e habita a região do açude Prata, no bairro de Apipucos, em Recife, é um urubu caminhante, gosta de dar longos passeios e voos rasantes pelas margens do rio Capibaribe. O interessante desta fábula é a amizade que surge entre o Urubill e a garça Graça. Esta ensina o amigo a comer peixe. Urubill abandona os antigos hábitos alimentares e passa a comer peixes e vegetais.
Dentre os amigos de Urubill, destacam-se Sombra, Gardel e Flatista Sombra era um urubu com ares de poeta, ficava pousado em uma jaqueira “lendo poemas de um tal de Augusto dos Anjos, repetindo várias vezes o trecho predileto deste poema: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”
Batra é um sapo e o personagem principal de “Batra, o sapo”. Andarilho por natureza, gostava de fazer caminhadas noturnas pelas ruas do Recife na companhia do jovem poeta Austro Costa, isso lá pelos anos de 30 e 40 do século XX. Morava na curva do rio Capibaribe, perto do Palácio das Princesas. Era muito, muito velho, dizia que conhecera pessoalmente o Conde Maurício de Nassau e Tabira, o chefe tabajara.
Tinha o hábito de reunir os sapos menores e os adultos e lá vinham histórias do Recife antigo relembradas por Gilberto Freyre no livro “Guia Prático, Histórico e Sentimental do Recife”, com 1ª edição em 1934 e reeditado diversas vezes. Dizia o Mestre de Apipucos:
“Os maus urbanistas quiseram aterrar primeiro o Beberibe, depois o Capibaribe para sobre esses ex-rios edificarem casas, apartamentos e vilas disto ou daquilo”.
Os rios não morreram de sede, mas tiveram, com o desenvolvimento da cidade, seus cursos alterados, sofreram mutilações, aterraram seus mangues, construíram edifícios, shopping center, abriram-se avenidas e os rios do Recife foram perdendo o encanto e a magia dos versos decantados pelo poeta Austro Costa:
“Rio Capibaribe
Capibaribe meu rio,
espelho do meu sonho”.

Temos muito o que aprender com as fábulas, com os animais, com os rios. Luiz Carlos Albuquerque, com essas duas fábulas modernas, ensina-nos a conviver pacificamente com a natureza, a não poluir os rios e a respeitar o meio ambiente.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

a megera idomada

A MEGERA INDOMADA E O PROFESSOR INESQUECÍVEL
(Neide Medeiros Santos)

(Para Auxiliadora – que guarda boas lembranças do meu professor inesquecível)

Todos que passaram pelos bancos escolares têm, na memória, a imagem de um (a) professor (a) inesquecível. Guardo, nas minhas lembranças, a figura de uma professora de Matemática da 4ª e 5ª séries do curso primário. Seu mau humor inspirava medo e as aulas de Matemática, que não me despertavam o menor interesse, tornavam-se um tormento para aquela menina que gostava muito mais de escrever, fazer composições com os quadros da Editora Melhoramentos do que aprender as quatro operações, MDC, MMC e resolver problemas intrincados de Matemática.
Muitas vezes fui colocada para fora da sala de aula por essa professora sob o argumento de que não me concentrava nas aulas e estava distraindo as colegas que queriam estudar. Felizmente, a palmatória já tinha sido abolida do colégio em que estudava, se isso ainda fosse uma prática corriqueira seriam doze palmadas em cada mão, como Pilar, aquele menino do “Conto de Escola” de Machado de Assis.
Somar, diminuir, multiplicar, dividir e fazer conta de cabeça foi um duro aprendizado – de um lado, a tortura, as dificuldades inerentes àquela que não gostava nem de Matemática nem da professora; do outro lado, a necessidade de saber as quatro operações para não ser reprovada. Hoje sei que a ojeriza a esta disciplina era fruto do não entendimento professora/aluna.
Ascenso Ferreira, no poema “Minha Escola”, fala também das dificuldades que teve na escola: encontrou um professor carrancudo como um dicionário e inacessível como “Os Lusíadas” de Camões. Para consolo do menino, à noite, em sua casa, havia uma velha ama que lhe contava histórias do reino da mãe d´água e lhe ensinava a tomar a bênção à mamãe lua.
No período em que fui aluna da megera indomada, eu não tinha uma velha ama para me contar histórias, mas tinha um irmão, estudante de engenharia, que me revelou alguns segredos da Matemática e também a resolver os problemas dessa disciplina. Esse irmão foi meu verdadeiro PROFESSOR INESQUECÍVEL, pois me encaminhou pelas áridas veredas dos números e consegui, no fim do ano, ser aprovada com boas notas.
O nome da professora? Não importa. Seu nome e sua imagem estão bem gravados na minha memória, prefiro, contudo, chamá-la de MEGERA INDOMADA.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

TRÊS MULHERES, TRÊS DESTINOS TRÁGICOS

TRÊS MULHERES, TRÊS DESTINOS TRÁGICOS

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Procura-se um sorriso
que se perdeu ontem
por volta das cinco letras
A-D-E-U-S.
(Maria Cristina Batista da Silva. Procura-se um sorriso. In: Anúncios Poéticos: UFPB, 1990).

Há 28 anos, no dia 21 de agosto de 1982, morria assassinada pelo ex-marido, a poeta e psicóloga Violeta Formiga. No momento em que a violência contra a mulher está sendo posta em discussão, não poderia deixar de lembrar esta data. Estendo a homenagem para outras mulheres paraibanas também vítimas da violência masculina: Margarida Alves e Maria Cristina Batista da Silva. Para se escrever a história de mulheres paraibanas que desapareceram de forma trágica, nos anos 80 e 90 do século XX, há de se passar, obrigatoriamente, por essas três mulheres.
Quem foi Violeta Formiga?
Psicóloga e, acima de tudo, poeta. Nasceu em Pombal (PB) e veio adolescente morar e estudar em João Pessoa. Fez o curso de Psicologia na UFPB e aqui se casou. Publicou em vida, um único livro de poesias – “Contra Cena”. “Emoções”, seu segundo livro, é póstumo.
O que desejava Violeta?
Apenas a liberdade, ser livre como um pássaro, como bem disse neste poema:
Dádiva

Ser pássaro
e voar infinito.
(Que seja este
o meu último
castigo).
Quem foi Margarida Alves?
Líder camponesa que almejava dias melhores para seus companheiros de sindicato rural, não temia a morte nem tampouco o poder dos ricos usineiros. Foi fundadora do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural em Alagoa Grande.
Qual foi o seu destino?
Morta com um tiro no rosto, na porta de sua casa diante dos filhos menores, no dia 12 de agosto de 1983. Morte encomendada. O poeta João Cabral de Melo Neto descreveu, no poema “Morte e vida Severina”, o tipo de morte de Margarida Alves:
(...)
Que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia.

Margarida já havia passado dos vinte anos, mas ainda tinha muito tempo pela frente para defender seus irmãos que morriam de emboscada antes dos vinte e de fome um pouco por dia.
Quem foi Cristina Batista?
Uma estudante de Letras da Universidade Federal da Paraíba que tinha um belo sonho, menos ambicioso do que o do líder negro Martin Luther King, desejava um dia ser professora e escrevia pequenos poemas nas aulas de Literatura Infantil da UFPB.
Mas o que aconteceu?
Foi morta na calada da noite em janeiro de 1990 e jogada em uma vala na BR- 230, na estrada que liga João Pessoa a Cabedelo.
Onde estão os assassinos?
No mês de agosto, quando completa 28 e 27 anos do desaparecimento de Violeta Formiga e de Margarida Alves não poderia deixar de fazer este registro e conclamar todas as mulheres paraibanas para que lutem por liberdade, justiça e acalentem seus sonhos – o sonho de um país em que as mulheres tenham voz e vez.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A LINGUAGEM DA PAIXÃO: a “Pedra de Toque” de Mário Vargas Llosa

A LINGUAGEM DA PAIXÃO: a “Pedra de Toque” de Mário Vargas Llosa

Piedra de Toque refleja lo que soy, lo que no soy, lo que creo, temo y detesto, mis ilusiones y mis desánimos, tanto como mis libros, aunque de manera más explícita y racional.
(Mário Vargas Llosa. Piedra de Toque) ·.

A Linguagem da Paixão (El Lenguaje de la Pasión. Punto de Lectura, 2003), de Mário Vargas Llosa, reúne artigos publicados pelo escritor peruano, em sua coluna “Piedra de Toque”, no diário El País de Madrid, entre os anos 1992 e 2000.
Os pequenos artigos de Vargas Llosa oferecem uma visão e uma análise da conturbada sociedade do fim do século, com abordagens de temas variados: problemas culturais, notas de viagens, literatura, pintura, música e acontecimentos da atualidade. São 46 textos escritos em diferentes partes do mundo e publicados, quinzenalmente, através do jornal El País.
Em 1998, Llosa ganhou o Prêmio José Ortega y Gasset, na Espanha, pelo texto – Nuevas Inquisiciones, incluído nessa coletânea. O periodista relata o escândalo em que foi envolvido o ministro inglês Ron Davies e condena a imprensa sensacionalista que se aproveita de certos casos para se intrometer na vida privada de pessoas importantes: políticos, artistas, intelectuais. Llosa trata o assunto de forma imparcial, longe do sensacionalismo de certos órgãos da imprensa.
Mas, no conjunto da coletânea, um texto nos chamou a atenção – La Señorita Somerset. O articulista conta uma história real que se assemelha a uma pura ficção e inicia com estas palavras:
A história é tão delicada e discreta como devia ser ela mesma e tão irreal como os romances que escreveu e devorou até o fim de seus dias.
Quem é a protagonista da história? Margaret Elizabeth Trask, uma inglesa nascida no inicio do século XX e que, a partir dos anos 30, escreveu e publicou histórias românticas utilizando o pseudônimo de Betty Trask. Ao morrer, Miss Trask deixou todos os seus bens avaliados em 400.000 libras esterlinas para a Sociedade de Autores da Grã-Bretanha. De acordo com seu testamento, esse dinheiro deveria ser atribuído como prêmio literário anual a um novelista menor de 35 anos que escrevesse uma “história romântica ou uma novela de caráter mais tradicional que experimental”.
Pouco a pouco, através da prosa fluente de Vargas Llosa, vamos conhecendo um pouco da vida dessa enigmática escritora. Margaret Elizabeth Trask passou a vida a ler e a escrever sobre o amor. Em seus 88 anos de existência, não teve nenhuma experiência amorosa. As testemunhas afirmam que morreu “solteira e virgem, de corpo e de coração”.
A família de Trask era de Frome, industriais que prosperaram com a fabricação de tecidos de seda e confecção de roupas. A senhorita Trask teve uma educação cuidadosa, puritana e estritamente caseira. Após a morte do pai, passou a se dedicar à mãe e a escrever romances, no ritmo de dois títulos por ano. A pessoa mais próxima de Miss Trask era a administradora da biblioteca de Frome. Era uma leitora insaciável e um empregado da biblioteca fazia uma viagem semanal à casa da escritora levando e recolhendo os livros que ela tomava emprestados à biblioteca.
Os vizinhos de Miss Trask acham inconcebível que tenha deixado todo o seu dinheiro para a Sociedade dos Autores da Grã-Bretanha e eles desconheciam o lado de escritora da estranha senhorita e questionam:
Por que Miss Trask não aproveitou essas 400.000 libras esterlinas para viver melhor? Por que premiar novelas românticas?
O articulista responde a essas perguntas com os seguintes argumentos: Miss Margaret teve uma vida maravilhosa, cheia de exaltação e aventuras. Sua generosidade, sacrifício e nobreza são comparáveis à vida dos santos. A existência de Margaret Elizabeth Trask foi intensa variada e mais dramática do que muitos dos seus contemporâneos.
Vargas Llosa também lança interrogações: Miss Trask foi mais feliz do que aqueles que preferem a realidade à ficção? Ele acredita que sim, e conclui que o fato de destinar toda sua fortuna aos escritores de novelas românticas é a melhor prova de que foi para o outro mundo convencida de que fez bem em substituir a verdade da vida pelas mentiras da ficção.
Dentre os inúmeros artigos dessa coletânea, este foi o que mais nos atraiu. É uma história verdadeira? Conta uma meia-verdade? Não importa. Valeu pela beleza e ternura do relato.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

José Paulo Paes: o poeta e o ensaísta


José Paulo Paes: o poeta e o ensaísta
Onde um lúcido menino
propõe uma nova infância.

Ali repousa o poeta.
( José Paulo Paes. Escolha de túmulo)

A Companhia das Letras publicou, em 2008, dois livros fundamentais de José Paulo Paes – Poesia Completa e Armazém Literário. Poesia Completa reúne poemas e Armazém Literário é uma coletânea de ensaios.
Na maturidade, o poeta se dedicou à literatura infantil e publicou vários livros para o público infanto-juvenil. Rodrigo Naves, na apresentação de Poesia Completa, afirma que as ilustrações que acompanhavam os poemas infantis dos livros eram discutidas carinhosamente entre o poeta e os ilustradores.
Naves afirma, ainda, que, na literatura infantil, José Paulo Paes conseguiu sucesso que superou tudo o que ele tinha publicado antes, e atribui esse fato à demanda desse tipo de literatura e a excelente qualidade dos livros de poesia para crianças.
Poesia Completa e Armazém literário contemplam o leitor adulto. Rodrigues Naves fez uma apresentação com riqueza de citações e de informações sobre o poeta. Vilma Arêas foi a responsável pela apresentação do livro de ensaios.
José Paulo Paes, modestamente, se dizia “um poeta como outro qualquer” e em tom de autoironia se intitulava “ o melhor poeta da minha rua” , seguida da explicação – sua rua era muito pequena, só havia um poeta, “ele-mesmo”.
Não faltou na seleção organizada por Vilma Arêas o excelente ensaio que José Paulo Paes escreveu sobre Augusto dos Anjos – “Uma microscopia do monstruoso”.
É conveniente lembrar que, no livro autobiográfico – Quem, eu? Um poeta como outro qualquer (Ed. Atual, 1996), José Paulo Paes revela que, na adolescência, o Eu e outras poesias de Augusto dos Anjos, foi um livro fundamental na sua formação literária. A respeito, ainda, do poeta paraibano, ele diz:
A poesia de Augusto dos Anjos, com suas angustiadas indagações sobre o sentido da existência humana, com as suas visões de pesadelo de morte e de decomposição dos seres vivos, com seu esmiuçamento ora microscópico ora telescópico dos mistérios do universo, me impressionaram profundamente. (1996:27)
A publicação desses dois livros veio comprovar que estamos diante de um poeta maior e de um crítico lúcido e instigante que sabia lidar, com mestria, com a Poesia, a Arte e a Cultura.

Literatura para todas as idades




Literatura para todas as idades
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB)

O reconhecido crítico brasileiro Antonio Candido disse, certa vez, que todo bom livro de criança serve para adulto e prossegue o crítico – o grande, o bom conto infantil é, portanto, o que vale igualmente para adultos. Imbuída do pensamento de Antonio Candido, iremos tecer comentários sobre livros produzidos para crianças e jovens, mas que certamente irão agradar aos adultos.

O BAÚ DE SEU MACHADO. Sílvia Eleutério e Márcia Kaskus. Ilustrações de Victor Tavares. Rio de Janeiro: Zeus, 2007.

Machado de Assis para crianças? Será possível? Já houve adaptações dos romances de Machado de Assis para jovens e belíssimas recriações do texto machadiano. Recentemente Moacyr Scliar recriou Dom Casmurro e escreveu “Ciumento de carteirinha”, mas Machado para crianças com texto bem dialogado parecendo peça teatral! Sim, gente, é isso mesmo, Machado de Assis para crianças.
Silvia Eleutério e Márcia Kuskas vêm desenvolvendo um trabalho na Academia Brasileira de Letras com o título de Ciclo de Leituras – Dramaturgia de Sempre com a finalidade de apresentar autores consagrados da dramaturgia brasileira ao público que freqüenta a ABL. Em 2003, as duas se reuniram e criaram o texto infantil O Baú de Seu Machado que agora, em 2007, aparece em livro pela editora Zeus.
Para fazer as ilustrações, foi convidado o desenhista e ilustrador Victor Tavares que pesquisou muito sobre o Rio antigo, o Rio da época de Machado de Assis e, com seu talento, criou cenários, casarios, ruas estreitas, lampiões, tudo à moda antiga.
Os personagens/moradores do livro são aqueles criados pelo bruxo do Cosme Velho. Seu Machado, o protagonista, é Machado de Assis, com traços de Simão Bacamarte, personagem meio louco do conto O Alienista. Aparecem, ainda, a cartomante, o imperador D. Pedro II, Deolindo e muitos outros, todos de forma bem jocosa com falas exageradas e traços caricaturais.
É livro para crianças grandes e pequenas. Quem assistiu ao espetáculo na ABL gostou, quem leu o livro também gostou. E você leitor? O que está esperando? Encomende o livro na livraria mais próxima de sua casa ou peça pelo reembolso postal, você não vai se arrepender.

A INFÂNCIA DE ZIRALDO. Audálio Dantas. Projeto gráfico de Camila Mesquita. São Paulo: Callis, 2007.

Ziraldo é cartunista, escritor, ilustrador, amado por crianças e adultos, é mineiro de Caratinga( MG) e começou a desenhar aos três anos de idade e, segundo seu biógrafo Audálio Dantas, não parou nunca mais.
Ziraldo é o filho mais velho de Dona Zizinha e Sr. Geraldo e da junção dos nomes dos pais surgiu ZI+RALDO = ZIRALDO. O menino foi criado no meio de cinco irmãos, três homens e três mulheres.
Quando estava com três anos, a família mudou-se para Lajão e foi nessa cidade que o menino descobriu o mundo. No fundo do quintal de sua casa passava um rio, o rio Doce. Para os olhos do pequeno Ziraldo, esse rio era um mar de água, rio capaz até de engolir menino. Um dia um menino foi levado pelo rio e uma jangadinha desceu o rio para procurar o desaparecido. Essa é uma cena que ficou gravada na memória de Ziraldo como uma das mais tristes lembranças de sua infância.
Ziraldo morava em uma casa com quintal grande, todo cercado por muros altos e brancos e foi nesse muro todo branco que Ziraldo começou a fazer seus primeiros desenhos. Foi também nesse período, vivendo em Lajão, que o menino despertou para os quadrinhos através dos gibis. A professora Maria do Carmo implicava com o gosto de Ziraldo pelos gibis. Quando encontrava uma revistinha na sala de aula armava um escândalo. Para essa professora o gibi “era uma indecência”, mas Ziraldo não se incomodava com as implicâncias da professora e, ao lado dos gibis, lia também livros - Tesouro da Juventude, Robinson Crusoé e quase toda coleção de Monteiro Lobato, tudo foi devorado pelo freqüentador da biblioteca da escola.
O biógrafo narra um episódio da vida de Ziraldo que merece ser contado. Certo dia um fotógrafo veio tirar o retrato da família. De repente, Dona Zizinha pede para que o fotógrafo esperasse um pouco, pois faltava o melhor amigo de Ziraldo e foi buscar correndo o amigo. E quem era o amigo? Um livro ensebado, lido e relido pelo pequeno. A paixão pelo livro é coisa muito antiga! No retrato da família, lá está Ziraldo com o livro na mão, essa foi outra cena que marcou a sua infância. Não causa estranheza a afirmativa do escritor: Ler é melhor do que estudar.
Audálio Dantas é alagoano de Tanque d´Arca e grande amigo de Ziraldo e gosta de escrever sobre a infância dos escritores. Camila Mesquita, responsável pela parte gráfica do livro, organizou os desenhos, retratos da família, a diagramação do livro, tudo muito bonito e bem simples. É leitura agradável que irá cativar leitores de 8 a 80 anos.


domingo, 26 de julho de 2009

Viajar é preciso Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti.



Viajar é preciso
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil / PB)

Não há melhor fragata que um livro
para levar-nos a terras distantes.
(Emily Dickinson)

A editora Record atendeu a meu pedido e me enviou um livro há muito tempo desejado – Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti. Ao recebê-lo, lembrei-me de Pedro Nava quando se referiu à aquisição dos livros que povoavam suas estantes:
“A aquisição de cada um foi o resultado de longas espreitas, pesquisas, paqueras, paciências e esperas – como na conquista das amadas”. (Galo-das-trevas.1987:49).
Chegou-me à noite e nessa mesma noite adentrei-me na leitura que me conduziu a terras distantes, mergulhei nos poéticos ensaios de Marina Colasanti e saí da leitura disposta a escrever mais um artigo sobre o desejado livro.
Composto de 17 ensaios que falam sobre leitura, alguns textos foram apresentados em congressos e seminários; outros integram artigos publicados em jornais e prefácios de livros. Vamos pinçar fragmentos e tentar despertar no leitor o desejo de ler o livro na íntegra.
“O real mais que real” é o primeiro artigo, e foi apresentado no Segundo Congreso de las Américas de Lectoescritura, em San José, Costa Rica, em 1995. Vale a pena transcrever a observação de Marina Colasanti sobre o conto “A pequena sereia” de Andersen:
A história da pequena sereia criada por Andersen não é uma história qualquer. É uma doce e maravilhosa parábola da vida. E se faz tanto sucesso com as crianças do mundo inteiro, que certamente não praticam os desmontes conscientes a que nós adultos e, sobretudo nós criadores e estudiosos da literatura somos levados, é porque as parábolas, como as metáforas, pertencem à linguagem dos sonhos, do imaginário. E não necessitam de desmontes para serem apreendidas. (p. 24)
“No mundo da magia se come rosbife” foi publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 2001, e, nesse texto, Marina discorre sobre a série Harry Potter e discute dois aspectos dos livros de Rowling: o mercado e o conteúdo.
No primeiro caso, ela afirma que os livros de J. K. Rowling vêm revestidos de uma grande onda de publicidade: outdoors, cartazes, anúncios de páginas inteiras, vitrinas especiais nas livrarias para expor os livros que se transformam em verdadeiros best sellers. São palavras de Marina Colasanti:
Harry Potter representa, portanto, uma virada no mercado editorial. A partir dele, instala-se a possibilidade de livros para crianças serem trabalhados ao mesmo tempo em vários países, em grandes lançamentos agressivos e coordenados, visando a vendas estratosféricas. Exatamente como certos livros para adultos. (p. 48).
Quanto ao conteúdo, Marina discorda do crítico norte-americano Harold Bloom que não considera os livros de Rowling bem escritos, ressaltando a presença de clichês. Reconhece que tem menos autoridade do que Bloom, mas vislumbra aspectos positivos nos livros da série Harry Potter e aponta: “poucas descrições e muitos diálogos”. Afirma ainda que a linguagem oral e o ritmo acelerado tornam os livros de Rowling palatáveis. Como convém a livros de série, eles deixam a porta aberta para a próxima rodada.
“Um espelho para dentro” foi apresentado no Encuentro de Escritores Brasileños, Casa de América, Madri, 2003.
Neste texto, a escritora se utiliza da metáfora do espelho para revelar o seu próprio eu. Partindo da pergunta: “Espelho, espelho meu, que escritora serei eu?” (p. 105), Marina, como a personagem Madalena, de Graciliano Ramos, no romance “São Bernardo”, se revela pouco a pouco e nunca se revela inteiramente.
Em seguida, fala sobre sua produção literária, seus livros, sua gênese, seu gosto pelos contos de fadas. Mas... depois de muito escrever, um dia ela se interroga:
Espelho, espelho meu, voltei a perguntar há exatos dez anos, o que foi que a escrita ainda não me deu”?
E o espelho respondeu: a poesia. (p.110)
Foi a partir da reflexão de não ser poeta que ela resolveu escrever o primeiro livro de poesias – Rota de Colisão e sentiu que a poesia estava no seu rumo, pois é na poesia, mais do que em qualquer outro gênero, que podemos beijar o lado de dentro das palavras. (p.110)
Nesse encontro, Marina Colasanti encerrou suas palavras com uma poesia. Era mais uma face do espelho que se fazia representar.
O último texto do livro “Que escritora seria eu se não tivesse lido?” foi apresentado no Simpósio Internacional Transdisciplinar de Leitura no Rio de Janeiro, em 2000. Algumas revelações feitas por Marina merecem registro. Ao falar sobre sua mãe e as leituras da infância, ela faz esta afirmativa:
Minha mãe não contava, inventando o texto ao sabor da fala. Ela lia. O encantamento da narrativa me chegou através da palavra organizada em escrita, e amei as palavras tanto quanto amei as histórias. Eu li ouvindo, quando ainda não podia ler. Para despir-me da leitura, totalmente, até a isso deveria renunciar. (p.248)
Hoje, adulta, a escritora diz que ler como “triatlo”. Acorda de manhã e perde no mínimo uma hora lendo jornais. Será que ela está perdendo mesmo tempo ou está se atualizando com as noticias do Brasil e do mundo?
Em uma segunda etapa, a escritora vai para o escritório e começa a ler o material de trabalho e pelo dia afora vai lendo e escrevendo. Reconhece que como leitora/atleta não é disciplinada, perde tempo lendo coisas inúteis e o pior é que esquece a grandíssima parte do que ler.
O livro se encerra com uma pequena nota da autora que utilizamos para colocar ponto final neste artigo:
[...] quando se chama um escritor para falar da escrita, o que se espera dele não é uma visão ‘de fora’ puramente teórica, mas o relato daquele percurso interior que lhe tornou a escrita possível. http://www.megaupload.com/?d=IUOBVTT6

domingo, 19 de abril de 2009

Marcus Accioly – um poeta nordestinado


Marcus Accioly – um poeta nordestinado
(Neide Medeiros Santos – Professora e Crítica Literária – FNLIJ/PB)

“... nordestinados somos todos nós – nordestinos, brasileiros, latinamericanos – porque este destino de Nordeste é a própria condição de NossAmérica.”
(Marcus Accioly. Capa do disco Nordestinados. A palavra que volta ao canto. Discos Chantecler s/d).

Marcus Accioly, que este ano completa 40 anos de poesia, é considerado uma das grandes vozes poéticas do Nordeste. A produção literária do autor abrange mais de 10 títulos: Cancioneiro (1968); Nordestinados (1972); Xilografia (1974 – livro de poemas com gravuras do folhetinista e xilógrafo José Costa Leite); Sísifo (1976); Íxion (1978); Guriatã: um cordel para menino (1979- com xilogravuras de Dila); Ó de Itabira (1980); Érato (1983); Narciso (1984); Latinomérica (2001). Accioly ainda escreveu dois pequenos livros para o público infantil – ABC dos Bichos e P (B) ara (ti) nação.
Nas Notas ao Leitor, inseridas no livro Narciso, Accioly divide parte de sua obra poética de acordo com os quatro elementos da natureza. Cancioneiro, Nordestinados e Guriatã: um cordel para menino estariam ligados à terra; Sísifo ao ar; Íxion ao fogo; Narciso à água. Teceremos alguns comentários sobre a fase ligada à terra.
A publicação de seu livro primeiro livro, Cancioneiro, o autor deve ao crítico literário e poeta César Leal, seu orientador poético e, como ele mesmo tem afirmado em diversas ocasiões, pai de sua geração. Com relação à receptividade crítica a esse livro, Nelly Novaes Coelho afirma que é uma tentativa de nomeação do novo Real e revela uma nova consciência épica.
Seguindo as trilhas de Cancioneiro, o segundo livro, Nordestinados, mergulha nas raízes populares e amplia o universo épico narrativo já detectado na obra anterior. Nelly Novaes Coelho saudou esse livro com um brilhante ensaio – Nordestinados: A Palavra que Nasceu do Canto.
A respeito do título Nordestinados, Marcus Accioly apresenta a seguinte explicação para o termo:
O neologismo nordestinado (que inventei no singular e usei no plural como título) deixa de ser espécie para tornar-se gênero: nordestinados somos todos nós – nordestinos, brasileiros, latinamericanos – porque este destino de Nordeste é a própria condição de NossAmérica.
O significado do vocábulo extrapola os limites do regional; ele é bem mais amplo do que parece, seguindo uma gradação que envolve nordestinos, brasileiros e os latinos da América.
Guriatã: um cordel para menino é o último livro ligado à terra. Composto de 91 poemas e cinco notas que explicam a gênese do livro, o poeta procura resgatar a infância perdida, o “país-paraíso” do engenho Laureano. O xilógrafo Dila, o ilustrador, tentou traduzir plasticamente o conteúdo do texto. Modalidades de cantoria (martelos, toada-alagoana, canções suspirosas, desafios, mourões); poemas dialogados e poemas independentes tornam esse livro o mais intrinsecamente preso ao elemento terra.
Accioly revelou, certa vez, que seguia Tolstoi pelo avesso – “procurava pintar o mundo para pintar a sua aldeia”. Acreditamos que, com a saga do engenho Laureano, o poeta conseguiu realizar esse ideal. O locus amoenus da região canavieira não é privilégio da zona da mata pernambucana: está presente na região da Provença, tão bem retratada por Paul Cézanne em seus quadros; nos riachos e rios, num canto da Champagne, povoado de várzeas, na descrição poética de Bachelard; no mundo encantado do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato e no país de São Saruê, do poeta popular Manoel Camilo dos Santos.
No que se refere à repercussão crítica, este livro conquistou dois grandes prêmios literários – 1º. lugar no Concurso Nacional Prêmio Fernando Chinaglia (1979), União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro e Láurea Altamente Recomendável para o jovem (1980) Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Guriatã: um cordel para menino já alcançou cinco edições, é o livro mais editado do autor.
Com esta obra, Accioly tenta recuperar a infância através de um texto que é a junção do épico com o lírico; do erudito com o popular; do real com o imaginário.
Na 5ª. edição (2006) – “Comemorativa dos Vinte e Cinco Anos e mais Um”, como costuma se referir o poeta a esta edição, encontramos, na orelha do livro, trechos do parecer de Stella Leonardos, membro do júri do Prêmio Fernando Chinaglia que julgamos pertinente transcrever:
Sobre o livro classificado em primeiro lugar (Guriatã: um cordel para menino - de Marcus Accioly) registrei em meu relatório:
Mestria verbal. O Nordeste inteiro no que tem de mais significativo e autêntico. Uma saga da infância esquecida. Algo de maravilhoso e de tal força que fez a relatora improvisar esses versos:
Ave, guri guriatã!
do cordel voa canto
tão voz de menino pássaro,
tão asa de voz menina
que o coração se ilumina
de hoje –sol luamanhã.
Qual será o motivo da permanência desse livro? São passados 28 anos da 1ª edição e “Guriatã: um cordel para menino” continua encantando a todos. Atribuímos essa permanência à presença dos mitos (populares e eruditos), a beleza poética do texto e a miscigenação dos gêneros ( é um livro épico, lírico e dramático).
Com Guriatã: um cordel para menino, Marcus Accioly traz à tona um passado perdido, um mundo vivido e sonhado e, principalmente, não deixa morrer a criança-poeta ou o poeta-criança que norteia sua vida.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A cartografia da saudade

Cartografia da saudade: um ensaio poético
(Neide Medeiros Santos – ensaísta e crítica literária – FNLIJ/PB)

Saudades, só portugueses
Conseguiram senti-las bem
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
(Fernando Pessoa. Quadras ao gosto popular).

Corpo e alma: terapia biopsicossociais, livro organizado por Maria Goretti Ribeiro, Maria de Fátima Araújo e José Alves Nogueira, uma edição da Editora Universitária (UFPB, 2007), reúne sete ensaios que tratam de problemas ligados à saúde e à psicologia. Na impossibilidade de destacarmos todos os ensaios, vamos examinar, com mais acuidade, o texto de Edmundo Gaudêncio que trata da temática da saudade e do luto.
Cartografia da saudade: apontamento para a clínica do luto, texto do médico psiquiatra Edmundo Gaudêncio, investiga “a vivência do luto, a reação emocional às perdas”. O ensaio de Edmundo Gaudêncio registra como texto “gerativo” a canção de Chico Buarque – Pedaço de mim.. A partir da letra dessa canção, o ensaísta discorre sobre as perdas, as coisas que não ficam, o luto e, de forma mais específica, sobre o sentimento da saudade.
A Psicanálise, a Antropologia e a Sociologia ajudam a entender o sentimento da perda, mas o texto de Edmundo Gaudêncio ganha corpo e poeticidade quando se detém no exame da saudade. E surge a interrogação: Quais são as nossas saudades?
Sentimos saudade de tantas coisas. O autor cita, como exemplos, a saudade do dia que passou, quando cai a noite; saudade dos lugares visitados, que são sempre mais belos quando distantes; saudade da primavera, quando chega o inverno. Esses exemplos levam o leitor a pensar em outros tipos de saudade. Saudade de um pôr-do-sol bem iluminado, de uma música suave e nostálgica, de uma leitura de um livro que nos encantou e que teima em voltar à nossa mente.
Há certos poemas, evocadores de saudade, que merecem ser lidos com acompanhamento musical e sugerimos que a leitura de Elegia I, de Cecília Meireles que recorda a morte da avó, Jacinta Garcia Benevides, seja feita ouvindo a bonita música “Meditação para Thaís”. de Massenet, com o acompanhamento do violino mágico de Sarah Chang.
Diante das saudades citadas pelo ensaísta, vem o comentário:
Mas essas saudades são tão simplezinhas, tão saudadezinhas, que nem notamos que são saudades. Apenas notamos como sendo saudade a saudade doida e doída do que não volta, do que não possui retorno: saudade de pessoa e coisa que, somente quando perdidas, descobrimos que eram únicas e descobrimos quanto de nós levaram consigo. Essa a saudade maior, da qual todas as outras são pálidos reflexos. (p.71)
Sabemos que algumas saudades podem retornar. Um lugar visitado que nos causou uma boa impressão pode ser revisitado, um livro amado pode ser relido, as estações são cíclicas, sempre se renovam. Mas uma pessoa que se foi essa não volta nunca mais. Uma casa demolida, a infância perdida, tudo é um passado sem volta.
Nesse ensaio, existe também a preocupação com os vários sentidos da palavra saudade, termo decantado pelos poetas, e aí aflora, mais uma vez, a veia poética do ensaísta quando diz:
... saudade é que se põe à mesa, no lugar de quem não veio, no lugar de quem não volta” (p. 72).
Saudade é perder de vista, é não ter mais sob os olhos, é nunca mais olho-no-olho. (p.72)
Diante da perda, que é uma coisa inevitável, o que devemos fazer? O analista da alma apresenta uma solução:... é necessário amar as pessoas, as coisas, os lugares antes que passem e sejam saudades. (p.74).
Para concluir, remetemos o leitor à canção de Chico Buarque que fecha o ensaio de Edmundo Gaudêncio como um “ritornelo”:

Oh, pedaço de mim,
Oh, saudade afastada de mim,
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior que o esquecimento,
É pior do que se entrevar. (...)










Prêmios da ABL/2008
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

...Ver bem não é ver tudo: é ver o que os outros não vêem.
(José Américo de Almeida. A Bagaceira. Antes que me falem. 42 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 3).

No dia 17 de julho, durante sessão solene comemorativa dos 111 anos da fundação da Academia Brasileira de Letras, foram entregues os prêmios literários 2008. Autran Dourado foi o vencedor do Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de obra. Izacyl Guimarães Ferreira recebeu o Prêmio de Poesia – “Discurso Urbano”. Na categoria de Ensaio, o vencedor foi Laurentino Gomes com o livro “1808”. Coube a José Alcides Pinto o Prêmio de Ficção, Romance, Teatro e Conto – “Tempo dos Mortos.” Daniel Munduruku recebeu o Prêmio de literatura Infanto-Juvenil com o livro “O Olho Bom do Menino” (Ed. Brinque-Book, 2007), com ilustrações de Rubens Matuck.
Antes de falarmos sobre o livro vencedor na categoria infanto-juvenil, vamos conhecer um pouco do autor e do ilustrador.
Daniel Munduruku, nome literário de Daniel Monteiro Costa, nasceu no Pará, é descendente do povo munduruku, atualmente reside no interior de São Paulo. Estudou Filosofia na Universidade Salesiana de Lorena, é filósofo e professor, cursa doutorado em Educação na USP. É autor de cerca de 30 livros infanto-juvenis. Em seus textos, procura sempre divulgar a cultura e o saber do povo indígena. Já recebeu inúmeros prêmios no Brasil e no exterior. Em 2006, foi condecorado com a “Comenda de Mérito Cultural”, outorgada pelo Ministério da Cultura e o livro “Meu avô Apolinário” ganhou menção honrosa da UNESCO (2003), no Prêmio Literatura para Crianças e Jovens, na questão da tolerância.
Rubens Matuck nasceu e mora em São Paulo, ilustra livros desde a década de 1980. É escritor, ilustrador, pintor, aquarelista, escultor e um árduo defensor do meio ambiente. Mantém no seu ateliê um viveiro de plantas, distribuindo mudas para arborizar as ruas de seu bairro e dá aulas para alunos com necessidades especiais. Seu trabalho com crianças, portadores de deficiências, o ajudou a ilustrar esse livro que fala da visão interior de um personagem muito especial – Theo Luís. Para ilustrar “O Olho bom do menino”, Rubens Matuck usou a técnica da aquarela. Cores suaves formam um conjunto harmonioso e agradável.
Daniel Munduruku sempre utiliza, em seus livros, a temática indígena, mas “O Olho bom do menino” foge desse tema recorrente e vamos encontrar como personagem central um menino portador de deficiência visual. Logo, no início da narrativa, após uma conversa com a mãe do menino, o narrador faz essa observação a respeito da visão de mundo do menino:
“- Ele parecia ser muito feliz, apesar dessa condição”. (p 8).
No decorrer da história, Theo Luís vai se revelando pouco a pouco e dá lições de bem viver à mãe que se sentia um pouco culpada pela cegueira do filho (ela tivera rubéola quando estava grávida) e aos adultos que privam de sua convivência.
Há uma passagem no livro em que o menino confessa a um adulto:
“- É importante que o senhor saiba que mesmo com os olhos fechados eu posso ver muita coisa”. Depois continuou:
“-Tem coisas que a gente só vê quando fecha os olhos. As pessoas cegas se acostumam com a escuridão e dela fazem seu mundo. A gente tem os outros sentidos que nos ajudam a ver coisas que os que vivem de olhos abertos não conseguem enxergar”. (p.14-15)
Theo Luís perdeu a visão, mas tem a capacidade de enxergar as pessoas por dentro. Há uma passagem do livro que o menino revela o que seu “olho bom” pode ver:
- Eu tenho um olho bom – disse, sorrindo...
- Mas não adianta procurar aqui, no meu rosto. Estes aqui nada vêem. É por isso que meu olho de dentro do coração funciona, e eu sinto quando as pessoas estão infelizes” (p. 19).
A poeticidade desse livro pode ser comparada ao filme iraniano “A cor do paraíso”, com direção e roteiro de Majid Majidi, que conta a história de Mohammad, um menino cego que busca o sentido da vida nas coisas mais simples – como um filhote de passarinho que cai do ninho e, sem pressa, espera ser colocado no abrigo seguro (e o pequeno Mohammad o traz de volta ao ninho), parar no meio do caminho e escutar o toc-toc dos pica-paus na mata, andar pelo campo na companhia da irmã, ouvir histórias contadas pela avó.
A beleza literária de “O Olho Bom do Menino”, aliada à riqueza da ilustração, nos levou a escrever uma breve louvação para Daniel Munduruku, inspirada nas palavras de José Américo de Almeida:

Louvo o avô e louvo o pai
Louvo todo o povo munduruku
Louvo o escritor Daniel
Que vê o que os outros não vêem.

E Rubens Matuck? Merece também ser louvado.

Minha inspiração é curta
Para tanta louvação
Para Rubens Matuck – obrigada
Digo adeus e vou-me embora.

sábado, 11 de outubro de 2008

violeta formiga



NEIDE MEDEIROS SANTOS
As pessoas não morrem, ficam encantadas.(João Guimarães Rosa)Violeta de Lourdes Gonçalves Formiga nasceu na cidade de Pombal (PB), no dia 28 de maio de 1951 e foi brutalmente assassinada no dia 21 de agosto de 1982. Este ano completa 25 anos de seu encantamento. Poeta e psicóloga, Violeta era uma alma sensível e teve forte atuação nas letras paraibanas, publicando poemas no “Correio das Artes” e em outros suplementos literários. Em 1981, lançou, na Galeria Gamela, Contra Cena. Sensações, publicado em 1983, é uma edição póstuma.A poesia de Violeta Formiga denota uma profunda paixão pela vida. Os poemas são curtos, versos simples, com destaque para os aspectos da vida cotidiana. O crítico literário Hildeberto Barbosa Filho ressalta que a poesia de Violeta é lírica e confessional, mas não resvala para o subjetivismo, é uma poética que se centraliza no emissor, no “eu - lírico”.Na edição do livro Sensações, vários poetas e amigos registraram depoimentos que ressaltam o valor de sua poesia e seu modo descontraído de ver e sentir o mundo. Através desses depoimentos, podemos traçar um retrato físico e psicológico da poeta.Altemir Garcia revela a frialdade do assassino com estas palavras:... Depois nem lavou as mãos. Ligou a vitrola e foi escutar Brahms.Anco Márcio destaca o local escolhido para alojar a bala assassina:... Logo no coração. Meu Deus, no lugar onde ela guardava todo o seu estoque de poesia e ternura.Carlos Tavares vislumbra a força da poesia de Violeta:E Violeta fez questão de gritar e gesticular pra todo mundo com suas estrofes, versos prontos e reticências.Cláudio Limeira chama a atenção para a musicalidade dos versos da poesia de Violeta:... Cante a última canção sem viola.O jornalista e cronista Evandro Nóbrega faz uma descrição física de Violeta, destacando a morenez e o brilho do olhar:Morena, com um quê de boneca ágil, pequena, sorridente, bonita a seu jeito, pulsante de cor e energia. Os olhos, os olhos pretos, vivos penetrantes, prazenteiros, joviais.O cronista Francisco Pereira Nóbrega rememora uma frase dita por Violeta que é um reflexo de sua maneira de ser:Violeta, onde estiver, estará repetindo a primeira frase que me disse: “deixaram a gaiola aberta, o passarinho voou. Achei foi bom”.Nelson Tangerini (RJ) louva a poeta e a poesia com essa contundente afirmativa:Aos artistas, a pena, a arte... aos incompetentes, as armas.O tenente Lucena instiga as mulheres paraibanas a adotarem a violeta como símbolo:Mulher paraibana adote a violeta como símbolo.O desejo de ser pássaro aparece em alguns de seus poemas e Dádiva representa bem esse desejo:Ser pássaroe voar infinito.(Que seja esteo meu últimocastigo)Para conhecer a poesia de Violeta Formiga é recomendável viajar pelos seus versos, diminutos em quantidade, mas ricos em qualidade literária. A leitura dos poemas que figuram nos dois livros de poesias – Contra Cena e Sensações – permite que o leitor mergulhe no universo poético dessa pombalense de vida breve, mas que soube, com seu canto, mesmo sem viola, atravessar as fronteiras da Paraíba.Os livros de Violeta Formiga não foram mais reeditados, só é possível encontrá-los em bibliotecas ou em sebos. O impacto da morte de Violeta suscitoudepoimentos pungentes,tudo não pode cair no esquecimento, é necessário que a sua poesia seja revisitada através da reedição de seus livros.